Nascido aos 10 dias do mês de Julho do ano de 1970, um pouco depois da Seleção Brasileira se sagrar tri campeã de futebol no México, tive uma infância muito calma, até demais, gostava de brincar com bichinhos de zoológico que eu ganhava toda semana por ir tomar injeção sem reclamar, passava horas inventando histórias e situações com os bichos, junto com os playmobils e alguns outros acessórios que eu fazia de fortaleza, casa, etc.

 

Nunca consegui ter um autorama, mas uma vez meus pais foram ao Paraguai e trouxeram uma versão do Ferrorama, eu passava bastante tempo vendo aquele trem dando voltas sozinho. Gostava bastante de ver desenhos, lembro do Pica-pau, Maguila, Manda Chuva, Flintstones, programas de Tv como o Elo Perdido, Perdidos no Espaço, Spectreman, Ultraman (National Kid não, aí já é velhice demais).

 

Uma lembrança muito antiga que tenho é de ter um machado de plástico azul e branco e eu brincava que era a bandeira da Portela (?), não me lembro porque, mas torço para ela até hoje. Lembro também de pegar o ferro de solda quente que estava ao meu alcance quando eu tinha 3 anos, claro que ele grudou na minha mão e devo ter chorado bastante. Lembro também de vários porquinhos da índia correndo pelo prédio, tipo uma invasão, mas isso eu posso ter sonhado.

 

Tenho a arquitetura da casa bem viva em minha mente, seria capaz de desenhar cada trecho dela, se eu soubesse desenhar, ao contrário de meu pai, que sabia desenhar bastante, também tinha a letra bonita, outra coisa que eu não herdei dele.

 

Vasco eu sempre fui, não me lembro de não ser Vasco, uma vez em 1977 o Vasco venceu o campeonato carioca e meu pai jogou um cinzeiro para o alto para comemorar, foi divertido.

 

Ele colocava a gente para ouvir os jogos de basquete no rádio e a cada cesta, comemorava como um gol, como era bom esse Vasco, que fazia aí uns 50, 60 gols por jogo.

 

Eu sempre quis ter uma festinha no salão do condomínio, para poder receber os amiguinhos e ser o centro das atenções, acho que só tive uma dessas.

 

Nas brincadeiras de correr eu era um dos melhores, pegava sempre a bandeira, salvava os amigos pegos, mas nas brincadeiras de bater, tipo carniça, eu sempre subia chorando.

 

No futebol eu também era bom, corria bastante, chutava forte, participei de alguns torneios dos condomínios e fui parar no campeonato carioca de 1984 jogando pela Portuguesa, mas o time era o saco de pancadas, o que não deixou de me proporcionar dois convites, para o Bangu e o Bonsucesso, mas eu senti a pressão e não aceitei. Era a época do Kiss e eu logo aprendi a tocar instrumentos, sempre sozinho, até hoje não entendo como consegui aprender a tocar, sem tutorial na internet e nem professor.

 

Na escola eu sempre fui o aluno nº 1 da classe, de chamarem a minha mãe pra receber elogios, a primeira vez que fui pra escola foi pra fazer um teste pra saber qual era o meu nível e eu entrei direto na 2ª série, com 6 anos, não fiz maternal, jardim, essas coisas, aprendi a ler em casa com 4 anos e então cheguei preparado, mas não me adaptei bem com as crianças mais velhas e voltei para o 1º ano, mas fui bem até a 7ª série, onde fiquei de recuperação em matemática, mas no final consegui passar, tem o boletim aí pra provar. Não consegui terminar o 2º ano do 2º grau nas duas vezes que tentei em colégio particular, a música já tomava todo o meu cérebro e o jeito foi ir para uma escola pública a noite, onde as coisas realmente aconteceram, conheci uma galera do Rock da Ilha do Governador e montei minha primeira banda, chamada “Exorcista”, pelo nome vocês percebem que era bem pesada, como todas dessa época, anos 80 e nela eu era o cantor, pois ainda não havia aprendido a tocar nada, fizemos uma meia dúzia de shows e quando o guitarrista base saiu da banda, eu comecei a fazer as bases, peguei rápido. Em seguida saiu o baterista e lá fui eu de novo me arriscar fora da zona de conforto. Chegamos a fazer um show comigo na bateria e vocal, foi em um festival na Praia da Bica e era o auge do RPM, no que eu começo a fazer um discurso contra os playboys da época, com suas roupas de marca, camisa enfiada para dentro da calça só na parte de trás e xinguei todo mundo, xinguei o RPM e joguei as baquetas no mar, acabou o show e até hoje ainda não entendi porque fiz isso.

Foi a época que eu mais fui em shows na vida, os preços não eram como hoje, dava pra ir em todos os shows internacionais também, porque eram mais raros, assisti ótimos shows de bandas em seu auge, como Guns, Faith no more, Judas Priest, Metallica, Êxodus, Extreme, Red Hot, L7, vi o Paul McCartney no Maracanã, Stones 3 vezes, Eric Clapton, David Bowie, Tears for fears, Oingo Boingo, vixe a lista é enorme, mas nada se compara a quantidade de shows dos Engenheiros do Hawaii, eu seguia pra onde quer que fosse, acho que vi mais de 300, desde 1986, agora com a carreira solo do Humberto eu desanimei um pouco, nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, opa, Lulu vi alguns também, Legião Urbana, vi todos que fizeram no Rio, não foram tantos assim, vi o Barão, Cazuza, Capital, Nenhum de nós, Hojerizah, Picassos falsos, Celso Blues Boy, Titãs, Biquíni Cavadão (Esse vejo até hoje), mas o que mais marcou a minha adolescência musical foi um show do A-há na apoteose em 1989, que show! Que eu não vi, fui, mas não vi, tudo começou quando alugamos um ônibus para nos levar ao show, nessa época eu andava com um pessoal bem legal e com boas condições financeiras, de todos eu era o mais pobre, mas como eu disse antes, os shows eram bem baratos nessa época, então deu para bancar. Já cedo, à tarde, começamos a beber para esquentar e eu não era muito acostumado com bebida, nunca fui, hoje em dia nem bebo mais, pois então, a carta era vinho e vodca, combinação letal, e eu exibido como sempre, peguei o garrafão de 5 litros e entornei até não aguentar mais e misturei com grandes goladas da vodca e claro que aquilo não ia dar certo nunca, não lembro de muita coisa depois disso, tenho alguns flashs de dentro do ônibus, a chegada na apoteose e meus pais me olhando no leito do hospital, do lado da cama, a minha camisa branca estava rosa de tanto vinho que eu vomitei e meu braço inchado de glicose na veia. A história que me foi contada é que um de meus amigos, que também perdeu o show para cuidar de mim, foi até minha casa de madrugada para dar a notícia, imaginem vocês, a campainha de casa toca lá pelas 4 da matina, minha mãe abre e o sujeito, que era um cara bem grande, com cara de enterro, entrega a ela minha carteira e chaves, pronto, morreu. No dia seguinte eu passei a base de sopa e canja me recuperando, o show havia sido na sexta e no dia seguinte haveria novo show e eu queria muito ir, mas não teve jeito, minha mãe não deixou. Mas 2 anos depois o A-há veio no Rock in Rio II e eu finalmente pude vê-los, além do festival inteiro, que assisti todo sóbrio, alugamos um ônibus novamente, mesma galera e eu pude encerrar este capítulo da minha vida de forma positiva.

 

Não tão positivo foi o Rock in Rio I, que eu daria um braço pra poder estar lá (Gente, sem referência ao baterista do Deaf Leppard, pensei nele depois que escrevi), vinha Iron Maiden, Ozzy, AC/DC, Scorpions e minha mãe não me deixou ir por ser muito novo, chorei dias, ou semanas, ou anos, choro até hoje, já que ainda não consegui ver nenhum deles ao vivo, teve o Queen também, mas este eu vi no Rock in Rio 435, pena que sem o Fred Mercury, nem tudo é perfeito, e ainda por cima levaram meu Galaxy S6, Rock in Rio nota 7.

 

Aos 17 tive uma banda muito boa chamada “Futuro do Pretérito” (O flyer do 1º show da banda está aí na página), a gente tocava cover de bandas nacionais e era um sucesso, os músicos eram excelentes e eu era o pior da banda, não que eu seja um músico muito bom, mas dava conta do recado, a banda não precisava ensaiar, a gente pegava a lista das músicas, tirava em casa e só fazia um ensaio para passar o show todo uma única vez, de primeira e saía tudo perfeito, velhos tempos. Fizemos vários shows pela Ilha, basicamente naquelas festinhas americanas (Quem lembra?) E foi bom enquanto durou.

 

E aí veio a Banda Ello, era a época dos 10 anos do Barão Vermelho e resolvemos fazer uma homenagem tocando as músicas deles, a gente ensaiava no terraço da casa do guitarra base, o Goni, a banda tinha o Marcus Melgar na guitarra solo, Fábio na bateria, Pizza nos vocais, Eduardo Mendes no teclado, com apenas 10 de idade e eu no baixo. A estreia foi numa festa junina na Portuguesa e o público estimado era de 5 mil pessoas, eu lembro que o som estava ótimo, o palco era grande, tinha boa iluminação, coisa de gente grande mesmo, foi um lindo evento e animou a gente para continuar o projeto, tocamos em alguns festivais pelo Rio, alguns buracos, mas a gente estava animado e ia assim mesmo. Um belo dia o vocalista não apareceu e chamamos um amigo, que estava nos acompanhando, para subir ao palco, deu tudo certo e ele acabou ficando na banda enquanto ela durou.

 

A nossa amizade era tão boa, que quando eu arrumei um emprego, levei dois da banda para trabalhar no mesmo lugar, o Sal Jr, vocalista e o Marcus Melgar, o local era uma lanchonete gourmet no Rio Sul, a gente fazia cachorros-quentes estilizados e pratinhos de peito de frango grelhados com chucrute, salsichas importadas da Alemanha e queijo Gruyere. O problema todo é que o refrigerante era liberado e nessa época apareceu uma barriga, que não era de Chopp, mas era de guaraná, sempre detestei Coca-Cola. E nos bastidores a gente comia as sobras dos peitos de frango e outra coisa que colaborava e muito para a barriga: Mousse de chocolate! No final de tudo acabamos demitidos e ganhamos uma causa na justiça por conta de horas extras não pagas, graças ao gerente que era superamigo nosso e que também foi demitido, mas guardou as cópias de todas as folhas de ponto. Grande ‘Seu Jaime’!

 

Não foi meu primeiro trabalho, eu trabalhei antes num banco de investimento, como office boy, tinha um outro nome na carteira: Liquidante, mas o que eu fazia mesmo era ir para banco pagar contas e tomar bronca dos diretores, fiquei 3 meses de experiência e não renovaram meu contrato, mas sinceramente, nem eu renovaria, pois eu saía para ir ao banco e acabava abduzido pelos Peruanos e suas flautas magníficas no largo da Carioca, atrasava mesmo e tive o que mereci. Mas esse trabalho serviu para que eu comprasse meu primeiro walkman, que era um grande sonho, imagine, poder escutar minhas fitas K7 em qualquer lugar que fosse. Super moderno.

 

Depois desse trabalho eu tinha a visão romântica de que seria um grande astro da música e que não precisaria trabalhar novamente, mas que ilusão que foi. Até que fiz alguns trabalhos remunerados tocando na noite, mas foi bastante difícil porque eu tinha que levar público nos bares em que tocava e o mais difícil mesmo é o tal bilhetinho que o garçom te traz com os mais absurdos pedidos, imagine eu ter que tocar Raça Negra, inadmissível, mas toquei, toquei também sertanejo, forró e por sorte naquela época ainda não tinha esse funk horrível de hoje em dia e nem gospel.

 

A coisa apertou mesmo quando comecei a namorar, tarde, eu sei, depois dos 22, era uma ex-colega da escola e a gente se reencontrou com o gosto comum em Engenheiros do Hawaii, fomos a alguns shows, antes da banda acabar em 1993 e por pressão dela, arrumei este emprego no Rio Sul, mas ela me largou assim mesmo, me achava sem ambição e ela não estava errada.

 

Nesses shows dos Engenheiros, conheci o Nilson que era roadie do baterista e queria montar uma banda, que até já tinha nome: Surfista Prateado, eu como fã dos gibis (Não mencionei no início, mas eu era leitor ávido da turma da Mônica e Disney, acho que li todos) adorei o nome e recrutei o Marcus Melgar para tocar com a gente e fazer um Power trio. Os ensaios eram de madrugada porque eu trabalhava no turno da manhã e o Melgar no da noite, lá no Rio Sul, então quando ele saía a gente ia para o estúdio e foi uma época bem legal, fizemos muitos shows, não só pela Ilha, não só pelo Rio, mas pelo Brasil (Tá bom, SP e MG apenas) e o nível aumentou.

 

A banda gravou um disco independente que levou uns 5 anos para ser totalmente finalizado e quando ele finalmente foi lançado, eu fui morar nos Usa, conheci um pessoal pelo mIRC que me garantiu moradia e trabalho até eu me estabilizar e lá fui eu, em menos de 3 meses aprontei tudo e me mandei de mala e sem cuia. Cheguei em NY em um dia 12/10 e não tinha ninguém me esperando, fiquei só um pouco desesperado e tive que aplicar meu inglês de escola para tentar fazer umas ligações. Consegui falar com meus amigos e foram me buscar, parece que me enganei com o fuso horário. Foi o único contato que eu teria com NY, ver todos os pontos turísticos pela janela do carro, pois o tempo estava bem esquisito. Cheguei em Framingham, Boston, Massassuchets e de fato foi como prometido, eu tinha moradia, com dois irmãos bem legais, mas o emprego eu tive que ir atrás, não sem antes cortar minha cabeleira de 61 cm, porque me enganaram dizendo que por lá não aceitavam cabeludos no trabalho e descobri tarde demais que isso é uma das maiores mentiras do universo, depois desse dia, deixei o cabelo crescer novamente até a minha filha nascer, que as coisas ficaram bem adultas para mim.

 

Usa foi uma experiência bem bacana, principalmente por eu ser branco de olhos claros, pois vi colegas brasileiros de pele parda sendo discriminados por americanos imbecis, que é quase uma redundância. Tem americanos legais sim, mas os que conheci eram seletivos e não ocupavam uma posição superior nos trabalhos, esses são mais seletivos ainda. O custo de vida é alto, mas a oportunidade de fazer dinheiro rápido também é alta, você recebe por hora e pode trabalhar quantas horas quiser, a não ser na baixa temporada que você é mandado para casa quando está começando a faturar muito. A alimentação não foi problema, eu comprava congelados e enlatados e comi muito bem durante o ano que lá passei. A internet ainda estava engatinhando no Brasil e ainda não tinha essa onda de celulares, eram bem caros e eu não tinha um, nem computador, então eu tinha que ir até a biblioteca para acessar a internet, eu ia de bike, era ao mesmo tempo um exercício, mas um dia deixei ela sem corrente e me roubaram. Nas horas de folga eu tinha uma turma de brasileiros e hispanos e a gente gostava de ficar tocando violão, lanchando, indo ao boliche e jogando futebol, foi bem divertido. Com 6 meses eu mudei de cidade, foi uma verdadeira reviravolta, saí do inverno de Boston para o verão de Virginia-DC e foi o maior calor que já passei em toda a minha vida, chegou a fazer 50º e a alternativa era mergulhar no rio Potomac, até outro dia eu tinha uma pedra que trouxe de lembrança, mas agora ela sumiu, talvez com a mudança. Comprei um carro por U$1.500,00 com dinheiro que eu tinha em mãos, não me fez falta. Um dia bateram no meu carro e tive que viajar muitos quilômetros para fazer a vistoria do seguro, tudo com burocracia zero, o cara fez umas fotos da parte batida e uma semana depois a grana já estava na minha conta, muito mais do que eu tinha pago, porque foi pela tabela oficial. O curioso é que eu não me lembro de ter pago qualquer tipo de seguro. Bem, sem carro eu andei muito de ônibus e metrô, tudo muito pontual, eu ficava contando mentalmente o momento do ônibus virar a esquina e deu certo todas as vezes, sem contar que o trânsito é super civilizado, pisou na faixa, os carros param pra ti, o limite de velocidade é respeitado também e o hambúrguer é ótimo, feito por gente capacitada, inclusive ex-presidiários, você reconhece pelos números marcados na pele, eles precisam ficar à vista, e não vi problema nenhum nisso, eu deixava até gorjeta, gostava do café também, fazia umas misturas bem legais como aquelas que via nos filmes.

 

Mas para falar de Usa, preciso contar como cheguei até lá e a história mais uma vez envolve os Engenheiros do Hawaii. Conheci o Carlos Maltz no auge do GLM, claro que dessa época ele não vai lembrar de mim, mas eu estava lá no meio daquela multidão em tantos shows que nem tenho a conta exata de quantos assisti, mais tarde o reencontrei no estúdio floresta na Tijuca, onde eu trabalhava como operador de som, já com a formação Gessinger, Horn e Maltz, logo em seguida à saída do Augusto Licks. Tive o prazer de ver músicas como "A perigo", "Por acaso", "Lance de dados" que ainda se chamava "BR-101", canções nascendo, na fase embrionária, com letras em folhas de fax que eu ganhei do Humberto e por ingenuidade deixei que o tempo as apagasse. Certa vez o ‘Surfista’ foi chamado para tocar no Circo Voador, no lançamento do livro do produtor dos Engenheiros na época, o Afonso, iríamos substituir a banda principal que não poderia se apresentar, os próprios Engenheiros do Hawaii. Já era um sonho para qualquer um tocar no Circo e ainda mais no lugar da minha banda preferida, fiquei uma pilha de nervos até o momento de subir no palco, quando tudo se acalma. Chamamos o Maltz para fazer uma participação e ele fominha como sempre, topou, a música foi "Carecas da Jamaica" e foi um dos grandes momentos da minha vida. Os ventos do destino me levaram para outro estúdio, o Verde no Cosme Velho e mais uma vez os Engenheiros do Hawaii no meu caminho, dessa vez com o quinteto do "Simples de coração", aprendi bastante com o Greg (R.I.P.), na época produtor da banda e com vários trabalhos internacionais de renome, ganhei muitas partidas de sinuca do Gessinger, ouvi muitas histórias engraçadas do Casarin, histórias do RPM do Deluqui, ensinei detalhes de arranjos harmônicos para o Horn, consegui o seu violão emprestado para o meu set acústico em um show do ‘Surfista Prateado’, joguei futebol com eles na época do Rock Gol da MTV (Mas só treinei, não participei do programa), a banda paralela do Humberto na época, o "33 de Espadas" abriu nosso show, mas a cereja do bolo mesmo foi ser produzido pelo Maltz na gravação do nosso 1º disco, foi apenas uma faixa, mas quem ouve nota a diferença do restante do disco, a dedicação do cara foi incrível, as gravações e ensaios eram na madrugada e ele lá firme e forte, passando sua experiência, pegando nas baquetas quando necessário e até a voz ele colocou nos refrões da canção. Em uma dessas madrugadas de estúdio, na volta para casa, caiu o maior temporal que o Rio havia visto em muitos anos, meu carro entrou em um buraco e morreu, a água começou a subir e o Maltz preocupado com o tênis dele, subiu no banco do carona e foi muito divertido ver um cara daquele tamanho encolhido tentando salvar o tênis, esqueci até que era o meu carro que estava literalmente afundando. Fomos então para a loja de conveniência de um posto e lá ficamos até amanhecer, compartilhando histórias e devorando cachorros-quentes e foi ali que nasceu a ideia de formar a "Irmandade". Já com o dia claro, o reboque apareceu e salvou o meu carro, mas uma semana depois ele foi roubado, o ladrão desconhece a sua rica história. Dali em diante, tive o prazer de frequentar o estúdio localizado na casa do Maltz em Ipanema e trabalhar no que viria a ser o cd da Irmandade, me orgulho muito em ser o 1º baixista a tocar a linha de baixo marcante de "Depois de Nós" e de outras pérolas daquele cd histórico. A 1º formação era Nilton na bateria, Duca Mendes no teclado, Marcus Melgar na guitarra, eu no baixo e Maltz no violão e na voz, lembro que nos intervalos das músicas autorais, a gente tocava alguns clássicos dos Engenheiros e para mim naquele momento era ouro puro. Mas na vida a gente precisa fazer as escolhas que consideramos certas e decidi por priorizar a minha carreira com o Surfista Prateado e larguei a "Irmandade" deixando sequelas, meu guitarrista do ‘Surfista’, o Marcus Melgar, decidiu ficar por lá e largou a nossa banda, mas é vida que segue e algum tempo depois deu tudo certo e todos ficaram bem. Tempos depois, tive o prazer de tocar novamente com o Maltz no aniversário do Fã Club FCENGRIO, tocamos "Além dos Outdoors" e finalmente consegui a minha foto com ele, que curiosamente nunca tinha tirado. Hoje me arrependo de muitas coisas que fiz na ocasião, além de ter deixado o Maltz na mão com a sua banda, a maior delas foi com o Gessinger, que me emprestou seu equipamento de som, sem previsão de devolução e que quando eu pudesse compraria dele, mas foi aí que o projeto USA apareceu e então vendi o equipamento para financiar a viagem e isso me custou sua amizade e um peso na minha consciência até hoje, me causou também muitos problemas de relacionamento com seus fãs mais radicais na época do Orkut (Tenho certeza absoluta que hoje em dia são todos apoiadores do Bolsonaro), mas creio já estar tudo superado, quem sabe eu consigo o seu perdão algum dia? Minha vida já é totalmente outra hoje, tenho filha, minha família, tenho duas lojas de informática e serviços, outra loja virtual, faço minhas gravações, minhas músicas e sou feliz assim, não preciso da fama e me considero bem-sucedido, agradeço a quem leu até aqui, eu precisava tirar isso do meu coração e compartilhar, me sinto bem agora.

 

Falei em filha?

 

Voltei dos USA perto do ano 2000 e tinha aquele mistério de como seria a virada do ano, do século, do milênio, os computadores iriam surtar, seríamos invadidos por aliens, foi bem bacana. Mas não aconteceu nada disso, foi uma virada como outra qualquer e tudo continuou como antes, FHC no comando por mais 2 anos ainda e o melhor ainda estava por vir. Falando nisso, lembro bem de um Hollywood Rock em 1993 que os ‘Engenheiros’ tocaram e no meio de uma famosa música tinha uma série de hinos e um deles era o jingle do Brizola e do Lula, foi emocionante.

 

Então, voltei com alguns dólares no bolso, pelo seguro do carro e também algumas coisas que vendi antes de vir e gastei bastante com várias coisas, comprei celular, que ainda era bem caro e viajei, e em uma dessas viagens, fui a um festival que tinha várias atrações nacionais e o encerramento era com o grupo “É o Tchan”, pois é, fiquei até o final para assistir e roubaram minha carteira, com o que sobrou dos dólares e meus documentos americanos, foi triste.

 

Voltei para a estaca zero, sem dinheiro, sem trabalho, mas sem muita obrigação, então desacelerei. Voltei para o ‘Surfista’ e continuamos com vocalista mulher, foram duas e uma ficou mais tempo do que a outra.

 

Em 2001 nasceu Zora Giovanna e mudou tudo, lá se foi o cabelo novamente e arranjei um emprego de caixa em um mercado, que não durou muito, porque em uma das noites que eu deveria estar trabalhando, o Vasco jogou com o Palmeiras na final da Copa Mercosul e eu não tinha como perder, mas o Vasco tinha, 1º tempo, 3x0 para o Palmeiras, lá no estádio deles, lá se foi o meu emprego e o título. 2º tempo, Vasco com 1 jogador a menos conseguiu fazer 4 gols, então o meu emprego foi para o espaço, mas o título veio. Eu tinha que arranjar outro emprego e tudo que eu sabia fazer estava relacionado à música, então fui trabalhar em estúdio novamente e em seguida fui ser assistente de DJ, fiquei nesse ritmo por 5 anos, até meu pai ter um AVC e eu notei que não fazia mais sentido ficar o final de semana inteiro ao dispor de um trabalho que me tomava mais tempo do que me dava dinheiro e resolvi passar mais tempo com a família e com meu pai nos seus últimos momentos. Não que eu soubesse disso na época, foram 8 longos meses visitando ele no hospital de Bonsucesso ou nos raros momentos que ele veio para casa, até a última ida para o hospital para não voltar mais, nunca mais. Eu creio que tudo começou quando tivemos que vender o nosso apartamento de 30 anos, para comprar a casa dos sonhos dos meus pais, com piscina, 2 andares e terraço com mesa de sinuca, tudo muito lindo até o corretor nos dar um cano e a gente ter que brigar na justiça até hoje, mas pelo menos já conseguimos a posse da casa e ela está alugada agora, não tinha clima para morar lá, já que o maior interessado não estava mais entre nós. Antes disso teve também o golpe dos títulos que meu pai caiu, todos nós caímos e perdemos um monte de dinheiro, foi uma época muito difícil e minha mãe precisou fazer quentinhas para poder ajudar no orçamento. Esse golpe, mais o golpe da casa, foi demais para ele, que teve que operar o coração e foi em uma das fisioterapias pós-operatórias que ele teve o AVC. Algum tempo depois foi a minha vó, que criou a todos nós de casa, já com 101 anos que nos deixou, mas não sem antes dar uma superfesta de 100 anos, lá em Porto Alegre, viveu bastante e contou muitas histórias. Mas meu pai não foi embora antes da grande realização da vida dele, o ano era 2008 e vimos um anúncio de uma lan house sendo vendida perto de casa, nós ficamos interessados, mas não tínhamos o valor pedido, mas surpreendentemente meu pai decidiu vender seu carro para poder fechar o negócio, foi inacreditável, ele era muito pé no chão e era inimaginável que ele fizesse algo do tipo, mas ele confiou em mim e no meu sobrinho e começamos a tocar o negócio. Levou um tempinho mas conseguimos pagar a ele tudinho e hoje em dia temos duas lojas de vento em popa. Muito do sucesso atual eu devo a uma pessoa que abraçou o projeto quase que desde o início e está com a gente até hoje, revolucionou os serviços, captou e fidelizou clientes e impulsionou os negócios, Jamísia é seu nome, ou simplesmente Mísia.

 

Nos conhecemos em 2008, no dia em que fechamos negócio, por isso, ela praticamente está na empresa desde o seu início, começamos a namorar em menos de 15 dias, em agosto e no final do ano ela estava viajando comigo para o Rio, detalhe, ela é do Ceará, era menor de idade na época e seus pais a deixaram viajar comigo, acabando de me conhecer. Foi mágico. Viajamos para vários cantos do país, casamos, descasamos, brigamos, fizemos as pazes e hoje em dia somos sócios e amigos.

 

Em 2016 descobri que tinha diabetes, depois de passar bastante mal, de ir a 3 médicos e um deles me dizer: “a boa notícia é que diabetes não é”. Imagine se fosse. Eu nunca gostei de ir a médicos, mas no começo era vontade de fazer xixi de 15 em 15 minutos que foi caindo cada vez mais, a ponto de eu ter que andar de fraldas, pois uma vez eu estava dirigindo e não consegui controlar, sorte que eu estava indo a um shopping e pude comprar roupas secas. Fiz exames variados, vários médicos e ninguém descobria o problema, até que em um dia que não consegui levantar da cama, Mísia me obrigou a entrar no carro e me levou a uma clínica na Tijuca, minha glicose estava mais de 600 e decidiram me internar, no dia seguinte veio o diagnóstico. Fiquei internado 4 ou 5 dias, Mísia dormia lá comigo e saía de manhã para trabalhar. Fui sendo tratado e a condição para eu sair é que eu marcasse uma consulta com um endocrinologista, só que era praticamente impossível marcar uma consulta assim de imediato, então me preparei para ficar mais alguns dias internado, pelo menos a comida era boa. Mas Mísia mais uma vez me salvou, conseguiu que a Endocrinologista dela me atendesse de emergência e saí no dia seguinte cedo. Fui na consulta e me trato com ela até hoje, minha glicose é supercontrolada e posso comer de tudo, menos açúcar, não sinto mais falta, tenho muitas opções saborosas e vivo muito bem.

 

Quero dizer, viver bem hoje em dia é luxo, elegeram um fascista que está acabando com o Brasil e acabou o nosso orgulho em vestir a camisa da seleção e torcer. O golpe foi tão duro que pareceu até o estalar de dedos do Thanos, metade dos amigos e familiares saíram de nossas relações, porque mesmo depois de provado que foi golpe, que as eleições foram fraudadas, que o demônio ganhou em cima de mentiras e deslealdades, das gravações vazadas pelo The Intercept, ainda conseguem defender, então é tolerância zero para essas pessoas, estamos vendo a Amazônia ser destruída, LGBTs sendo perseguidos, negros sendo caçados nas favelas e os apoiadores rindo. O governador, que é outro imbecil, comemora a execução de um sequestrador de ônibus e não tenho noção de onde isso irá parar, acredito que a melhor solução vai ser o Lula voltar para a presidência e colocar ordem na casa, como foi de 2003 até meados de 2015 quando a Dilma tentou governar e sofreu o golpe. Mas a minha felicidade e alivio é poder ficar tranquilo, com a consciência tranquila de estar do lado certo da história, o futuro irá dizer.

 

 

 

 

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